É complicado simplificar! Será que nossa cultura dificulta o aprendizado do inglês?

Imaginem a cena: reunião encerrada, a hora da “social” se acabando, as pessoas começam a se dispersar, um dos convidados, presente pela primeira vez, pergunta – “Onde é a estação de metrô mais próxima”? “Eu não sei”...”nem eu”...”eu vim de carro”...”eu, de ônibus”, até uma pessoa falar, “eu sei” podem parecer respostas perfeitamente normais, mas considerando a pergunta, todas estão erradas! Quando a pessoa fez essa pergunta, ela a direcionou para: pessoas que sabem onde é a estação de metrô, e que querem responder (pois é, existe a possibilidade de quem sabe não querer falar). Tal simples pergunta, que deveria ser respondida com instruções, “dois quarteirões a esquerda” ou “logo após aquele muro”, provoca uma variedade de manifestações nada relacionadas com a questão. Mas por que fazemos isso, por que respondemos sabendo que nossa resposta não vai acrescentar nada de valioso ao assunto? E, por que isso tudo não somente passa por aceitável, mas também corriqueiro ou até desejável? Talvez uma pergunta mais importante ainda seja, será que todos nós realmente fazemos isso? Ao vivenciar diferentes culturas, descobrimos que não, nem todos fazem isso. Pelo contrário, para alguns, essa ação de dar resposta ao que não sabe é visto como algo desnecessário e talvez até intrusivo. Então por que fazemos isso? Uma explicação, simples por sinal, já veio em uma sentença anterior: cultura. Antes de nos aprofundarmos no assunto, precisamos estabelecer que não existe cultura errada, apenas diferente. A cultura que rege o comportamento de determinado povo foi construída ao longo de eras inteiras, moldada por circunstancias e situações particulares a aquele povo; julgá-la errada seria como querer usar um microscópio para observar a lua. Uma vez estabelecido isso, precisamos nos situar. Somos latinos, e como tais, extremamente comunicativos; podemos dizer que não somente temos vontade, mas também necessidade de nos expressar! Nossas sentenças são construídas com um número de palavras considerado excessivo para muitos. Gesticulamos tanto ao falarmos que alguns podem confundir uma conversa com uma briga física pronta para acontecer. Simples explicações se transformam em contos homéricos, cheios de detalhes e opiniões que muitas vezes dispersam a atenção do assunto principal. Logo, respostas como "dois quarteirões a esquerda" ou "logo após aquele muro", diretas e simples, além de não aceitáveis, podem até ser consideradas rudes e mal educadas. Mas e se, apesar de parecer não existir conexão alguma, os fatos detalhados acima explicassem a dificuldade de tantos em aprender o inglês? E se um dos principais fatores que dificultassem tal aprendizado fosse algo que parece pouco provável, a cultura? Explico, historicamente complicados, ficamos assustados com a simplicidade. Por sentenças curtas e diretas ao ponto não nos satisfazerem, por criarem um vácuo desconfortável que sempre poderia ser preenchido com mais detalhes, buscamos mais enriquecimento nos dizeres e "escreveres". Fazemos isso justamente com o inglês, uma língua baseada na simplicidade, tanto de regras quanto de vocabulário (toda a gramática na língua inglesa é ensinada em um único semestre; seu dicionário é extremamente menor devido a flexibilidade das palavras, que adotam diferente sentido de acordo com o contexto). Essa mesma flexibilidade de vocabulário se estende para a pronúncia, mas agora ao invés de facilitar, torna-a confusa para nós, acostumados com regras simples e bem consistentes (estamos falando de pronuncia)...e à essa confusão, somamos nossa necessidade de complicar, criando assim um monstro, muitas vezes assustador e difícil de ser domado. Precisamos então tentar algo mais fácil de falar do que fazer, que é descomplicar as sentenças. Talvez a prática do ditado americano “Less is more!” (Menos é mais!) seja justamente a mudança de comportamento cultural que precisamos adotar para facilitar o processo de nos expressarmos em inglês; buscar sentenças simples, ir mais diretamente ao ponto, ter consciência de que o mais importante não são os detalhes, lembrando que ao tentarmos “enfeitar” demais o que falamos, corremos o risco de desviar a atenção do principal, a mensagem, além de aumentarmos muito as chances de nos complicarmos nas ideias a serem expostas. Não é um caminho fácil a ser trilhado; como falamos antes, cultura se constrói ao longo de gerações. Mas quem sabe, ao adotar um modo mais simplificado de nos expressarmos, possamos fazer isso em nossas vidas também.

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